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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Saudade

Como tentar entender um sentimento tão grande? É possível definir este sentimento devastador? A saudade é um sentimento difícil de se explicar, mas fácil de se sentir. Às vezes aperta o coração, nos faz chorar, nos entristece. Sentimos saudades do amigo que se foi, do pai, mãe, avô, avó, primo, tio. De entes queridos que partiram para outra existência. Sentimos saudades da primeira namorada, do primeiro marido, do primeiro dia de aula, do primeiro beijo, do primeiro abraço. Saudade da bronca, da voz amorosa de um amigo. Sentimos saudades do bom dia dado, do olhar transmitido, daquela viagem maravilhosa, saudade de casa, do cachorrinho, saudade daquele papel escrito com letras garrafais que dizia EU TE AMO. A escola, aquele tênis, a novela favorita, simplesmente sentimos saudades.
Olhamos no âmago de nossa existência e percebemos que as coisas acontecem e nos deixa saudade, não só na causa boa, mas também em péssimas lembranças ficamos remoendo tecendo ódios e rancores. Quem ama, sente saudade, quem gosta, sente falta. Se pudéssemos definir a saudade, em outra palavra, seria falta. A falta é aquele vazio que em algum momento cria lacunas e espaços no tempo e na nossa vida. Uma pessoa que deixou um enorme vazio porque foi embora, e agora? O que vou fazer sem você aqui? Como vai ser minha vida sem seu abraço? Seu sua benção? Ele se foi e só nos resta a saudade.
Este sentimento machuca, dói, fere. Aí nos pegamos na lembrança dos bons momentos vividos, das conversas, dos diálogos e percebemos que ele, que se foi, se torna mais próximo, porque o amor é capaz de superar as mais tênues barreiras do tempo, e quando a pessoa não está mais presente fisicamente, é aí que ela estará mais viva em nossa memória. Às vezes somos egoístas em querer deixar que as coisas perpetuem em nossa vida, mas não podemos. Para cada coisa que chega, é preciso que outra vá embora. Mas a saudade fica, oxalá se pudéssemos esquecer aquele amigo que tanto amamos e que não quis mais estar com você, aquele primeiro amor que te “trocou”, que não te quis, aquele momento que nunca mais poderá se repetir porque o outro não esta mais aqui. Nossa felicidade não está apenas nestes momentos que passaram. Ela está em nós mesmos. Mas a danada da saudade impede de vivermos e superarmos estes inúmeros vazios que ficam.
E como preencher este vazio? E como não sentir saudade? E como não continuar amando e dando afeto àquele que tanto amamos e que não está mais aqui? Como deixar a saudade de lado e tentar racionalizar as coisas? Sinceramente, não é possível. Aquele vazio da pessoa que se foi nunca vai ser preenchido por outro. Podemos amenizá-lo rezando, e lembrando bons momentos sem dar lugar à tristeza. Não é possível deixar de sentir saudade, porque, querendo ou não, ela nos faz bem, porque nos aproxima de tanta coisa que nos ajuda a crescer. Mas não podemos viver no saudosismo, porque aí corremos o risco de ficar enraizados no passado e perdendo as maravilhas do presente e as surpresas do futuro. Não deixamos de amar, nunca, simplesmente amenizamos a falta. Não podemos deixar de sentir saudade porque ela esta aí e quanto mais tentamos fugir, quanto mais queremos evitar, ela chega deixando grandes dores. Tudo é uma questão de adaptação. Não é fácil, ninguém disse que seria fácil nossa missão. Mas para cada cruz carregada, uma glória vencida.
Precisamos, à luz da sabedoria, trabalhar internamente esse sentimento. O que impede de escrever para o amigo distante? O que impede de tocar a vida? Que direito temos de nos martirizar pelo outro que não nos quis? Pelo outro que nos rejeitou? Foi ele. Ele que se foi e não eu, eu não posso permitir que isso me tire a paz, que isso me destabilize, criando assim sentimentos tenebrosos.
Só quem ama sabe o significado e a dor que é esta palavra SAUDADE. Não apenas dor, mas alegria. Como é bom receber um bom dia de quem gostamos, como é lindo e maravilhoso receber um elogio e perceber o quanto é importante para o outro, como é formidável ser lembrado pelos amigos. Saudade de ouvir sua voz, do seu sorriso, de estar ao seu lado e viver aquele momento novamente. Saudade de tudo. E nos pegamos no egoísmo de perpetuar as coisas, por isso é preciso amadurecer a duras penas para não cairmos no vazio e na insignificância da vida.
Deixemos claro que a saudade vai existir e precisamos estar firmes para podermos encarar a ausência. Olhar para o passado e ver o quanto foi bom estar ao seu lado, e que agora não estará mais presente. Mas nada impede de dizer um “oi” pelo facebook ou pelo whatsapp, ou, à moda antiga, mandar uma carta. Nada nos impede de ver uma foto e rir ou chorar daquele momento. Deixar o outro ir embora e ocupar o lugar no tempo que ficou é uma maturidade que aos poucos vamos entendendo. Cada coisa acontece no seu tempo e deve ficar no seu lugar. Se quisermos eternizar, nunca seremos felizes, porque, para cada tempo, o seu momento. Por isso devemos estar hoje ao lado de quem amamos, pois pode ser a última vez que a vejamos, porque o trem da vida passa e não sabemos quando ela vai desembarcar e nos deixar sozinhos.

Para não sentirmos a dor da saudade, a dor de não ter feito, faça, ame, cuide, viva, sorria, chore, entristeça e se alegre. Respirar fundo e olhar para frente é o melhor remédio para a saudade. Só quem não sente saudade não sabe o significado do amor. Porque quem ama sente falta, sente saudade.

E você, sente saudades?

Envie sua carta para: guiguicaiado@gmail.com / gcfilosofia@gmail.com / Facebook: Guilherme Caiado

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tempo de Recomeçar
                                                                       por Guilherme Gomes Caiado*

A palavra recomeçar nos indica um começo de algo que vai iniciar ou um começo de um fim? Certamente as respostas serão variadas, porque cada um tem seu tempo subjetivo, tem sua história, tem seus dados axiológicos. Mas o que é evidente que tanto o começo como o recomeço implica em uma caminhada. Não importa o caminho que vamos percorrer para poder chegar onde queremos, nem onde queremos o que importa é o processo pelo qual fez nós caminhar. Os momentos que vivemos até o presente momento. O início foi o fator preponderante para poder caminhar, o meio nos impulsiona para o fim, mas durante este processo paramos muitas vezes e nos deparamos com situações em que fosse preciso recomeçar e retomar de onde paramos.

A cada momento recomeçamos e começamos concomitantemente. Porque a vida é um prédio em construção, muitas vezes precisamos trocar algumas paredes de lugar para dar leveza, ou precisamos construir colunas para dar sustentabilidade. Estas construções nem sempre são agradáveis, requer muita luta e esforço, alguns conseguem com facilidade, outros requer mais cuidado e atenção.

O medo pode bloquear todo e qualquer recomeço. Rubens Alves sabiamente diz que; “Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o voo e se trancam em gaiolas, sonham com voo, mas teremos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terro do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” Muitas vezes passamos tempos querendo desenvolver papeis existenciais demais e esquecemos que existe uma única pessoa atrás do ser. O EU grita por um espaço e uma oportunidade de recomeçar a construir o que antes foi impossível.

As cortinas do tempo vêm fechando o presente ano e os aplausos de boas vindas do novo ano já podem ser ouvidos, assim convidados a fazermos uma reflexão da nossa vida e de tudo o que fizemos neste ano. Reflexão esta que ira nortear e traçar os começos e recomeços de nossas vidas. A filosofa Nichele Paulo nos diz que: “é difícil começar, mas o começo é começo ou pode ser um meio, porque às vezes o começo já está em andamento ou já foi... Começar pelo fim? O fim também pode ser um começo... Pode não ter um começo e nem um fim. Um meio pode conter os aspectos determinantes ou importantes do que foi percorrido, de um fim concluído. Independentemente de alguma demarcação temporal, a vida segue construindo a história, tecendo as singularidades do que foi e está sendo vivido. Isto já é um começo? Então já começamos, agora parece que fica mais fácil. As palavras avulsas vão se entrelaçar dando textura, cor sonoridade, até mesmo sabor. Possíveis e impossíveis ao texto que vai se desdobrando em inúmeros caminhos. Cora Coralina nos diz: ‘o que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada’.”

*Guilherme Gomes Caiado é filósofo e estudante de filosofia clínica.

Para crítica, elogio e sugestão: guiguicaiado@gmail.com